Texto da página 12
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CORREIO B
CORREIO DO ESTADO QUINTA-FEIRA, 15 DE OUTUBRO DE 2026
ENSAIO
Senti falta de Darcy como uma forma de pensar o País
INTRODUÇÃO Antes de publicar o texto de Pedro Mastrobuono, quero fazer uma breve introdução, não apenas por nossa amizade, mas porque há textos que, pela força do pensamento e pela emoção com que nos alcançam, deixam de pertencer somente a quem os escreveu, pedem para ser compartilhados. Pedro Mastrobuono e eu somos grandes amigos. Ao longo do tempo, construímos uma interlocução que ultrapassa a amizade: compartilhamos leituras, ideias, inquietações, elaboração de livros e projetos; trocamos textos diariamente e, não raro, ele me envia, ainda de madrugada, aquilo que acabou de escrever, como quem divide primeiro com alguém próximo uma pergunta que ainda reverbera dentro de si. Lemos, um ao outro, em primeira mão, aquilo que ainda está nascendo: somos os primeiros leitores das palavras que o outro acaba de escrever. Foi assim que recebi o texto que segue. Pedro escreve a partir da realidade política e social que o resultado das eleições de 2026 nos impõe. Confesso que suas palavras me tocaram profundamente. Li o texto na madrugada de segunda-feira [dia 5] e não consegui mais dormir. Não apenas pela emoção, mas pela clareza com que ele procura compreender o momento brasileiro sem se deixar aprisionar pela superfície dos acontecimentos. Há, em sua reflexão, uma pergunta maior do que a eleição: que país estamos construindo e que país ainda desejamos ser? Por isso, pedilhe que me permitisse compartilhá-lo. Mais do que um comentário sobre um resultado eleitoral, este ensaio é um convite à reflexão. Pedro recupera uma ausência q u e , n e s t e momento, me parece especialmente eloquente: a falta de Darcy Ribeiro como uma forma de pensar o Brasil. Não se trata simplesmente de lembrar uma figura histórica. Trata-se de reencontrar um pensamento capaz de olhar o País em sua complexidade, suas contradições, sua desigualdade, sua extraordinária potência e, sobretudo, sua possibilidade de futuro. Ao publicar este texto, portanto, não pretendo oferecer respostas. Quero apenas ampliar uma pergunta, talvez uma das mais necessárias diante do Brasil que temos pela frente. Darcy nos deixou muitas perguntas, mas há uma que hoje parece atravessar todas
as outras. É uma pergunta do ensaio que escolhi para acompanhar sua leitura: “Que povo ainda queremos ser?” Talvez seja justamente aí que a política deixe de ser apenas disputa pelo poder e volte a ser aquilo que deveria estar em sua origem: a difícil, necessária e profundamente humana tarefa de imaginar juntos o país que ainda podemos nos tornar. E talvez sentir falta de Darcy seja, no fundo, sentir falta dessa capacidade de imaginar o Brasil para além do imediato: como projeto, como destino e como possibilidade de reinvenção. (Ana Maria Bernardelli)
PEDRO MACHADO MASTROBUONO*
“… uma esplêndida civilização assentada na mais bela província da Terra” Darcy Ribeiro
Depois de uma eleição que dividiu o Brasil quase ao meio, o desafio não é apagar as diferenças, mas reconstruir uma ideia de País capaz de contê-las. Há resultados eleitorais que escolhem governantes. Outros revelam sociedades e o primeiro turno das eleições presidenciais de 2026 talvez pertença à segunda natureza. Entre os dois primeiros colocados à Presidência da República houve uma diferença de pouco mais de 2,2 milhões de votos, num país de dimensões continentais. Não é apenas um resultado apertado. É uma fotografia. Mais de cem milhões de brasileiros distribuíram-se entre dois projetos políticos profundamente distintos, quase na mesma proporção. E talvez a pergunta mais importante, neste momento, não seja quem vencerá o segundo turno. É o que o vencedor fará com a parcela imensa do Brasil que não o escolheu. Penso nisso e, de maneira inevitável, senti falta de Darcy Ribeiro.
Não apenas do autor de “O Povo Brasileiro”. Não apenas do ministro, do senador, do fundador da Universidade de Brasília ou do homem que ajudou a imaginar o Memorial da América Latina. Senti falta de Darcy como uma forma de pensar o País. Conheci-o quando eu ainda era jovem demais para compreender inteiramente o significado de sua presença. Meu pai e Darcy haviam sido ministros no governo de João Goulart, e foi naquele período que nasceu entre eles uma amizade que atravessaria posteriormente o exílio. Depois de 1964, ambos estiveram no Peru, e Darcy frequentava nossa casa em Lima. Eu era jovem demais para compreender inteiramente as conversas daqueles homens. Talvez por isso minha memória tenha guardado menos os argumentos do que o tom. Havia política. Havia indignação. Havia divergências. Havia um país que os havia expulsado. Mas havia também alguma coisa que hoje me parece muito mais rara: mesmo diante de conflitos profundos, tentavam compreender o Brasil inteiro. Darcy tinha lado. Tinha convicções. Tinha adversários. Era capaz de uma combatividade extraordinária. Mas sua ideia de Brasil era sempre maior do que sua circunstância política. Talvez seja exatamente isso que me faça sentir sua ausência agora. O que faz falta são homens cuja ideia de país seja maior do que o lado ao qual pertencem. Depois de uma eleição como essa, não precisamos de mais alguém capaz de demonstrar por que metade do Brasil está errada. Disso já dispomos em abundância. Talvez precisemos de alguém capaz de perguntar como essas duas multidões continuarão pertencendo ao mesmo país na manhã seguinte à eleição. Darcy dedicou grande parte da vida a uma
questão que atravessa toda a sua obra: como populações arrancadas de mundos diferentes, indígenas submetidos à destruição, africanos escravizados, europeus, mestiços, imigrantes, pobres, sertanejos, caboclos, habitantes de experiências regionais tão diversas, terminaram constituindo alguma coisa que pudesse ser chamada de povo brasileiro? Sua resposta nunca foi romântica. O Brasil não surgiu da harmonia. Surgiu também da violência, da desigualdade, da imposição e do conflito. Mas surgiu. Apesar de tudo, alguma coisa se constituiu aqui. Um povo. Talvez a pergunta de nosso tempo seja outra. Como impedir que um povo, depois de constituído, comece a desfazer-se pela incapacidade de reconhecer a si mesmo? Na medicina, uma doença autoimune ocorre quando o organismo deixa de reconhecer como próprio aquilo que pertence ao seu corpo e passa a atacá-lo como se fosse estranho. Às vezes penso que sociedades também podem adoecer dessa maneira. Quando milhões de brasileiros deixam de enxergar outros milhões como adversários políticos e passam a percebê-los como corpos estranhos, algo mais grave do que uma divergência eleitoral começa a acontecer. O outro já não está apenas errado. Passa a ser considerado moralmente ilegítimo; a presença incomoda. A voz parece intolerável. A condição de pertencimento começa a ser questionada. O organismo começa a lutar contra si mesmo. E nenhum país consegue vencer uma guerra contra metade de si mesmo. Isso não significa defender uma conciliação vazia. Aqui Florestan Fernandes é indispensável: sua reflexão sobre a democracia rejeita uma integração nacional que oculte desigualdades e mantenha milhões de brasileiros socialmente
incluídos, mas privados de direitos, oportunidades e poder real. Portanto, dizer que o Brasil precisa reencontrar alguma forma de unidade não significa pedir que suspendamos nossos conflitos. Há conflitos que precisam ser enfrentados. Há desigualdades que precisam ser corrigidas. Há direitos que não podem ser negociados em nome de uma falsa pacificação. Uma sociedade democrática não elimina conflitos, mas aprende a enfrentá-los sem excluir pessoas. A unidade nacional não exige ausência de divergências, mas a capacidade de reconhecer adversários como compatriotas. Paulo Freire distinguiu a radicalidade, que busca as raízes dos problemas para transformá-los, do sectarismo, que aprisiona a realidade em certezas incapazes de escutar. É possível defender ideias com radicalidade e disputar eleições intensamente sem desejar o desaparecimento de quem pensa diferente nem excluir simbolicamente seus eleitores da comunidade nacional. A democracia não exige concordância, mas respeito à existência do outro. Exige algo anterior. Que reconheçamos no outro alguém que continua pertencendo à comunidade mesmo quando pensa aquilo que consideramos profundamente errado. Isso me remete a outra questão que tenho procurado pensar nos últimos tempos: a reconstrução da confiança. Nenhuma sociedade funciona apenas por leis. As leis regulam comportamentos e estabelecem limites, mas dependem de uma dimensão invisível que sustenta a legitimidade das instituições. Precisamos reconhecer que compartilhamos uma experiência coletiva, que a divergência não é ameaça e que perder uma eleição não significa deixar de pertencer ao País. Por isso, é preciso reaprender a escutar, sem confundir escuta com concordância. Escutar não é mera gentileza, mas reconhecer a existência da experiência alheia, independentemente de nossa aprovação. Quando uma sociedade perde essa capacidade, os diálogos cedem lugar a monólogos: quanto menos escutamos, mais gritamos e menos conseguimos ouvir. A tecnologia amplificou esse mecanismo: nossas certezas são continuamente confirmadas por quem compartilha nossas ideias e aversões, enquanto o adversário deixa de ser alguém real e se torna uma caricatura criada pelo nosso grupo. Deixamos de discutir ideias para combater caricaturas do outro. A verdadeira crise política começa não com o fim do
consenso, mas com a perda do reconhecimento mútuo. O resultado do primeiro turno deveria inspirar menos euforia do que responsabilidade. A vitória confere autoridade para governar, não propriedade sobre o Brasil. A diversidade dos votos permanece, e a grandeza presidencial começa quando o eleito se dirige também àqueles que não o escolheram: “Agradeço aos que votaram em mim. Mas quero falar também aos que não votaram”. Não como protocolo, mas como compreensão do poder: o verdadeiro desafio do eleito é governar também quem não lhe deu confiança, protegendo a todos sem exigir adesão. É assim que a vitória eleitoral pode se transformar em liderança nacional. Volto a Darcy e à imagem do farol de que falei em outro ensaio: ele não elimina a tempestade, mas nos orienta quando perdemos a noção da costa. É dessa referência que sinto falta, não de homens sem convicções ou conflitos, mas de lideranças capazes de orientar sem ignorar as injustiças. Sinto falta de pessoas capazes de defender suas convicções sem reduzir o País a elas, conscientes de que o Brasil é maior do que qualquer governo, partido ou geração. Talvez por isso, Darcy ainda faça tanta falta: pensava em escala de povo, unindo coragem e humildade. Coragem para reconhecer conflitos; humildade para compreender que nenhum partido, ideologia ou eleição esgota um país. Uma eleição escolhe um presidente, não metade de um povo: o Brasil continuará sendo de todos, vencedores e vencidos, esperançosos e temerosos. O desafio do próximo presidente será fazer todos se reconhecerem como parte do mesmo país. A democracia adoece quando transforma uma parcela do povo em inimiga. Talvez reconstruir o Brasil comece pela pergunta que Darcy compreenderia: que povo ainda queremos ser juntos?
* Presidente da Fundação Memorial da América Latina, pós-doutor em Antropologia Social. Agraciado com a Comenda Câmara Cascudo do Senado por sua trajetória na proteção ao patrimônio cultural nacional. Expresidente do Instituto Brasileiro de Museus (Ibram), além de sóciofundador e ex-presidente do Instituto Alfredo Volpi de Arte Moderna. É doutor honoris causa pela UFMS. Idealizador do Distrito Acadêmico e Científico Latino-Americano, com a cooperação de USP, Unicamp e Unesp, bem como do Centro de Ensino Superior Darcy Ribeiro, do qual é sócio-fundador e primeiro reitor. É o homenageado do ano pela Associação Brasileira de Críticos de Arte (ABCA), em reconhecimento à sua relevante contribuição à cultura brasileira.